Muitos artistas já afirmaram, ao longo da história, que emanam da infância as questões fundamentais que animam sua obra. À distância, elaborados pela técnica, os eventos e a imaginação da criança são fonte perene de inspiração e oferecem ao criador aquilo é frequentemente o que tem de mais singular, sua marca pessoal. O título do segundo disco do Escambo - Neon (Independente, 2013) - remete aos letreiros, luminárias e incandescências que pontilharam a infância urbana dos compositores Renato Frazão e Thiago Thiago de Melo, ambos crescidos no Rio de Janeiro durante os anos oitenta. Pinçado da letra da canção "Espantar o Mau Vento", de Thiago, o elemento -- coincidência descoberta a posteriori entre risadas de assombro -- é vizinho na tabela periódica ao Flúor, nome do primeiro álbum da banda, lançado em 2008 e indicado ao 21º Prêmio da Música Brasileira.

Ao contrário, no entanto, dos inúmeros tributos que, de forma saudosista e acrítica ressuscitam símbolos da cultura pop, a visita do Escambo ao Neon oitentista é repleta de ironia e auto-questionamento, e opera sínteses originais de um leque incomum de referências. Despertos para a composição musical, como tantos de sua geração, por influência da tradição da grande canção brasileira -- Renato Frazão formou-se em música popular pela UniRIO e Thiago Thiago de Melo, filho do poeta amazonense Thiago de Melo é irmão caçula de Manduka, verdadeiro tesouro encoberto da MPB -- foi na acidez dos timbres de guitarra, na crueza das baterias retas e vocais esgarçados que os autores encontraram o ambiente propício para dar vida a sua síntese Neon.

Numa primeira audição costuma saltar aos ouvidos o choque incomum entre a base rock'n roll, espraiando-se em sofisticada trama de harmonias, contracantos e timbres orquestrados pelo produtor musical Ivo Senra, vencedor do Prêmio da Música Brasileira de 2012 - e um universo poético que remete aos mitos fundacionais do Brasil profundo, do Amazonas  -- como no mito do boto, descontruído e recriado em Vingança de Cunhã -- ao Sertão onde se ouve o "berro de amor no fim da estrada" em Cantadeira, e onde se encontram Manuel Bandeira, Jaime Ovalle e os Beatles, em Pássaro Preto. Quem ouvir neste cruzamento entre atavismos nacionais e afluências cosmopolitas e contemporâneas uma filiação tropicalista não estará longe da verdade -- mas não é apenas na presença ou ausência de uma ou outra matéria prima que se percebe Neon numa categoria peculiar dentro do campo da MPB contemporânea. 

Além de propor uma recolocação na síntese pop brasileira de uma proporção descomedida do lirismo, melancolia, e da explosão de sentimento que são parte crucial desta "infância", ou origem poética do país, o Escambo recebe a herança antropofágica e carnavalizante dos tropicalistas com um mixto de amor e crítica, admiração e ironia. As misturas entusiásticas entre todas as técnicas e modas de centros e periferias, aclamadas da televisão mainstream aos círculos de intelectuais -- "o rock de Caramuru" e o "funk de arrastapé" -- são alvo de uma bem humorada provocação na canção "Pagode do Sumaré", quinta faixa do CD, que é uma chave para a compreensão do viés irônico de Neon. De forma rara na história recente da MPB, empreende-se uma tropicalização do tropicalismo, uma relativização do relativismo, uma provocação que pode abrir novas trilhas para a música brasileira, e mesmo para a canção como forma de compreender (ou inventar) um país. 

O Escambo

Criado em 2006, o grupo - liderado pelos compositores e cantores Thiago Thiago de Mello e Renato Frazão - e integrado, além destes, por Diogo Sili (guitarra), Daniel Sili (bateria) e Tássio Ramos (baixo) é uma presença constante na cena da nova música carioca. 

O primeiro disco da banda (flúor, 2009, independente), gravado em Belo Horizonte e com a participação de mais de 30 músicos, foi indicado ao 21º Prêmio da Música Brasileira na categoria Melhor Grupo de MPB.

No ano passado o Escambo lançou NEON, disco que, nas palavras do crítico musical de O Globo, Leonardo Lichote, "pousa como avis rara em sua geração". NEON foi produzido por Ivo Senra e gravado no estúdio Toca do Bandido, do lendário produtor musical Tom Capone.

Em janeiro deste ano, o Escambo realizou três apresentações em Nova York e recebeu elogios do crítico musical Jon Pareles, do New York Times.